De Pedra


# O Recado de Orfeu #


Enquanto o professor de química transcrevia para o quadro negro complexas e imensas fórmulas, nós, alunos, falávamos sobre os mais variados assuntos que podiam ser resumidos à música e mulheres. Não necessariamente nesta ordem.

Após um breve silêncio João começa a contar um "causo" que havia lhe deixado inquieto os dois últimos dias. Dizia que durante o crepúsculo da tarde, enquanto estava de bobeira pelas ruas do centro observando os diversos objetos artesanais espalhados sobre grandes retalhos de panos no chão expostos aos olhares curiosos do público como estutetas de mármore e bronze no MASP e tantos artistas, inclusive do som. Chamou-lhe a atenção um velho homem de cabelos brancos desgrenhados, pés calçados em chinelas de couro e farrapos pretos que já eram cinzas, talvez pelo desgaste do tempo.

Perguntei ao João o que ele havia visto de especial neste homem, uma vez que em nossa sociedade pessoas assim - infelizmente - fazem parte do cenário e não do elenco.

Ele me disse que esse hjomem estava com um instrumento de cordas nas mãos, mas que ele nunca havia visto até então e , mais que isso, quando os castigados dedos daquele homem tocavam as cordas do objeto de madeira emitia-se um som que harmonizava com a voz que soprava palavras estranhas terminadas em s, denunciando um sentimento melancólico.

Estranho mas parecia que só ele (João) estava na platéia e ninguém mais havia se dado conta do show que acabara de acontecer.

João foi então em direção ao músico e o convidou para tomar um vinho barato num boteco ali perto. Já instalados na mesa que estava na calçada e servidos de vinho, o velho começa a falar sobre um homem que em tempos remotos desceu até Hades em busca de sua amada, morta por uma serpente venenosa. Durante o resgate utilizou suas principais armas - a poesia e a música - e enquanto guiava sua amada em direção à Luz descuidou-se por alguns instantes, voltou o olhar para trás e a perdeu definitivamente, agora tragada pela terra.

Tudo isso foi narrado em tons de lamúrias que alternava-se com a intensidade do volume da voz em quase gritos de dor.

Disse ainda que, este homem que fez da noite seu dia e cantou o amor perdido até o fim da vida, elegeu uma pessoa que se incumbiu de cantar seu recado nesta existência com a esperaça de um dia entregar a EURÍDICE. Isso acontecerá sucessivamente até chegar aos ouvidos de sua amada.

Hoje, pelo fato das olimpíadas ser uma grande celebração entre os povos, ser realizada na Grécia... lá onde tudo começou, por tudo isso é a melhor ocasião para se entregar o recado de ORFEU, seja em Hades, na Terra ou no Olimpo.

Eu só espero que os deuses assim como os humanos escutem rock.


vini

PS.: Rascunho feito com base no mito de Orfeu em referência à canção Casa de Flores / Eremitas.





Escrito por eremita às 16h18
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# COMO HOJE #

Numa dessas madrugadas entre tantas outras em que fico acordado zapeando pelos canais de tv enquanto toda a casa dorme encontrei na cena de um filme um "dejaveur". Era uma loja de discos em que o proprietário listava suas 5 melhores canções de foras. Isso porque havia sido dispensado por sua namorada e naquele momento curtia uma dolorosa fossa amorosa. Passado alguns dias estava eu revolvendo a gaveta da bagunça e me chamou a atenção um flying vermelho e preto que há tempos eu havia jogado ali e que propagava uma peça teatral entitulada : A Vida é Cheia de Som e Fúria, peça que eu tinha assistido acompanhado de alguns de meus melhores amigos. Nesse momento associei a peça ao filme daquela noite que só depois DiN me disse ser entitulado Alta Fidelidade. De certo era a mesma essência sob expressões diferentes, enfim, falavam das mesmas situações, das mesmas angústias, mais do que isso, das mesmas pessoas, inclusive de mim que estava na platéia em uma noite de alegria e algum tempo depois no sofá de casa unindo idéias por estar sem sono. Bem o fato é que o êxtase que tomou conta de mim pelo simples fato de reconhecer algo foi uma sensação muito boa, talvez mais intensa que a própria sensação de conhecer algo novo. Por esta simples experiência e constatação humana acordo todos os dias afim de conhecer e vivenciar alguém ou algum ato inédito nessa minha "vidinha + ou -" para poder identificar 5 canções de um dia como hoje que não são as mesmas de ontem e certamente não serão as mesmas de amanhã. 5 - Hey Joe - Jimi Hendrix; 4 - Roadhouse Blues - The Doors; 3 – Sweet Simphony - The Verve; 2 - Imagine – John Lennon; 1 - Vapor Barato - Elis Regina* * Sei que essa fabulosa canção não foi gravada na voz desta notável cantora, mas eu imagino. E aí, já listou suas canções hoje? vini

Escrito por DiN às 15h14
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Denis Rodrigues é jornalista, músico e louco.
Escreve no Bravus.Net e trabalha na Agência DeBrito Propaganda na produção de conteúdo para portais. Nasceu em 20 de outubro de 1979, em São Paulo e vive entre as ruas selvagens do leste e os arranha-céus do Sul da cidade.

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